terça-feira, outubro 28, 2008

Se...

Se quiser saber de mim,
Estou cá na janela.
Vendo a garoa fina,
Coroar o dia cinzento.

Se quiser saber de mim,
Tenho frio.
Não sei se vem da rua,
Ou de dentro.

Se quiser saber de mim,
Vem pra janela,
Muda o dia!
Traz sossego,
Pra onde só há vento.

Se quiser saber de mim…


















" Blue Dancers " - Edgard Degas ( 1899 )

sexta-feira, outubro 17, 2008

A Estrutura da Bolha de Sabão

Era o que ele estudava. "A estrutura, quer dizer, estrutura", ele repetia e abri a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. "A estrutura da bolha de sabão, compreende?". Não compreendia. Não tinha importância.......
Lygia Fagundes Telles












No meio de uma multidão: " Nossa Lygia, que confusão!" . Ela sorriu e cochichou em nossos ouvidos: " Tudo é confusão"... Proféticas palavras que, segundo ela, foram ditas por Machado de Assis...

terça-feira, outubro 14, 2008

Arrepio...

...Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.
Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mi como una luna en el agua.















texto: Julio Cortázar; foto: Henri Cartier Bresson

quinta-feira, setembro 25, 2008

Portifólio IV - Irma Vap

Uma entre tantas.

Entre os tantos mil espectadores que durante 12 anos assistiram `a primeira montagem do espetáculo, havia uma menina, com seus 10 ou 11 anos de idade e que vivia uma possibilidade de aventura absolutamente mágica.
Era a primeira vez em que ia, conscientemente, `a um espetáculo de teatro. Com a mão grudada na mão da prima, um ano mais velha, e a outra agarrada na mão da avó .
Sentindo um frio na barriga pelo pânico de assistir a um espetáculo de “adultos”. Desembarquei no meio de uma multidão de pernas, muito maiores que eu inteira. Saímos do táxi e ficamos esperando minha avó, Ana, na beira da calçada, enquanto a fila da bilheteria se desenrolava. As mãos continuavam grudadas. Minha prima tinha a obrigação de cuidar de mim, enquanto vovó entrava confiante no meio da multidão para conseguir nossos ingressos.
Os gorros, cachecóis, casacos e a espera, só aumentavam a tensão – será que ela conseguiria? - Estar no centro da cidade, no frio e na chuva, característicos de São Paulo, em um teatro com um painel de mosaico se agigantando para cima de mim, era no mínimo assustador. O teatro era o Cultura Artística ( talvez até tenha sido em outro, mas ficou gravado como se fosse). O espetáculo, “Irma Vap”.
As recordações que ficaram foram das muitas trocas de roupa, do óbvio não entendimento dos cacos políticos, uma peruca pra cá, um vestido pra lá, os dois atores de quem tanto gostava, o cenário enviesado pelo acento lateral e claro, as risadas. Que eram muitas.
A avó com o sorriso estampado no rosto e um brilho de travessura, que só ela conseguia carregar, nos olhos. Travessura esta, que havia sido premeditada, sem o aval de nossas mães. Uma sorrateira surpresa da matriarca! A pipoca doce na saída e a inveja das mães ao saber do rapto. nos proporcionaram uma recordação ainda mais deliciosa. Em 2005 a minha querida avó Ana se foi, deixando em nós, muitas destas saborosas alegrias.
20 anos depois desta primeira pipoca na saída do teatro, veio a reestréia e o novo elenco, tão poderoso como o anterior, e resgataram em mim aquela lembrança, aquele olhar de travessura que tanto me acompanhou. Fizeram com que o sabor ficasse ainda melhor! Tornando possível que eu, finalmente, entendesse um pouco mais desse mistério que é “Irma Vap”.
É com muita humildade que, depois de assistí-los, resolvi contar essa pequena historieta … Num desejo de que outros tantos anos passem e que outras tantas meninas tenham a chance de guardar na memória o deslumbramento de vê-los em cena.





















P.S.: Layouts feitos para uma concorrência de programação visual do espetáculo. Usei desenhos do Angeli (com o consentimento dele, é claro! - o último é meu mesmo)- Não ganhei, mas adorei!
vai lá: Teatro Shopping Frei Caneca.

terça-feira, setembro 23, 2008

Fuerzabruta


Pela primeira vez no Brasil Fuerzabruta faz curta temporada no Parque Villa Lobos. Fuerzabruta surgiu como mais um projeto do grupo argentino De La Guarda. A criação é do diretor Diqui James e do compositor e diretor musical Gaby Kerpel. Segundo o diretor o espetáculo tem grande inspiração no Brasil, principalmente no carnaval e na energia que festa passa ao público.O show vai do silêncio até um nível musical que atinge muitos dB(*) e exploram todas as emoções da platéia. Entre jogos de luzes, corpos suspensos, inúmeros movimentos e musicalidade os atores, que freneticamente desafiam a gravidade, envolvem o público e tudo se transforma em algo único, real e de grande força cênica. No inicio do espetáculo, o público se depara com um homem, sustentado por um cabo de aço, que está no meio de corrida insana, sob uma esteira rolante, explodindo paredes e passando por vários cenários. Homens e mulheres percorrem grandes cortinas prateadas que passam muito perto do público. Minutos seguintes os atores fazem coreografias que envolvem com o ritmo e as batidas da música, e ao mesmo tempo interagem com o público.
O espaço onde Fuerzabruta será apresentado é composto por toneladas de estruturas metálicas e cabos. Uma tenda de aproximadamente 50 metros é transformada num imenso palco, que dá suporte para as centenas de luzes e caixas de som. O espetáculo tem capacidade para mil pessoas em pé que interagem com os atores, cenários e cenas impactantes. (texto extraído - www.guiadasemana.com.br )

(*) Rubrica: física, metrologia. Unidade utilizada na medida da intensidade do som, correspondente à décima parte do bel [símb.: dB] Etimologia - ing. decibel (1928), composto de deci + bel; o termo bel foi criado pelos norte-americanos em homenagem a A.G. Bell (1847-1922, físico escocês), inventor do telefone - portanto 1 decibel, muitos decibels e não decibéis como é usual!!não?!

sexta-feira, setembro 19, 2008

Que Sufoco...

Borboletas na barriga,
Num vai e vem sem fim.
Frenéticas!
Estreitam a garganta,
À espera da hora certa.












foto: Helmut Newton; poesia: Carolina de Carvalho - 2005

The Beauty of Being Free

Can we get high and not fall?
Stop what you're doing,
Before it gets all out of hand.
Let’s just have a nice cup of tea...
Before the end.

Even the shinning Moon,
Even the bright Sunset,
Can’t pay the price
Of our wonderful laugh.

The beauty of poetry is well worth.
A certain beauty about being free…
Maybe that’s why you can’t hold me.
Maybe there’s nothing to be.

…So…Let’s just have a nice cup of tea...

















Almost a Song...Carolina de Carvalh0 - 2006

segunda-feira, setembro 15, 2008

Foolish VI

A história da menina e da aquarela,
da água, da tinta e da janela…

A menina na janela,
Coloriu e sorriu,
Amarelo de sol,
No cinza do frio.
Chorou e fugiu.
A menina na janela,
Fez chover na aquarela.
E a tal história;
Da menina e da aquarela;
Da água, da tinta e da janela…
Já era.














poesia: Carolina de Carvalho - foto: Claudio Marcelo Kornfeld

sexta-feira, setembro 12, 2008

Dossiê Rê Bordosa

Pré-estréia do curta-metragem Dossiê Rê Bordosa, dirigido por Cesar Cabral e produzido pela Coala Filmes, nesta sexta-feira 12 de setembro, à meia-noite, no Reserva Cultural.
O filme participou de vários Festivais - É TudoVerdade, I Festival de Paulínia, Anima Mundi, Festival Internacional de Curtas de SP, Festival de Gramado, ... - acumula prêmios de crítica e público. A animação stop motion conta com vozes de Grace Gianoukas como Rê Bordosa, Peréio como Bibelô, e Laert Sarrumor como Bob Cuspe, além de depoimentos de Laerte, Toninho Mendes e outros "cúmplices" deste violento assassinato.
Desvendando porquê Angeli matou Rê Bordosa no auge de sua fama....


vai lá: Reserva Cultural - Av. Paulista, 900.

terça-feira, setembro 09, 2008

João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?






















Composição: Chico Buarque / Sivuca - foto: Chico em 2008

segunda-feira, agosto 25, 2008

Foolish V

Falar só por falar,
Sem pensar pra quê.
Blábláblá sem nexo,
Depois o dia amanhece,
E a gente esquece,
Aquilo tudo de dizer.
Volta, simplesmente,
A ler e reler...


















poesia: Carolina de Carvalho -
foto: Zena Holloway (www.zenaholloway.com)

quarta-feira, agosto 20, 2008

Romántica...y sin perder la ternura...


show: Muppet Beaker sings Yellow by Coldplay

terça-feira, julho 29, 2008

Erro de Português

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.















poema: Oswald de Andrade ; foto: Eu, morrendo de frio!!

sexta-feira, junho 13, 2008

Fagulhas

Abri curiosa o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração, inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.
Eu queria até mesmo saber ver,
num movimento redondo
como as ondas que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria (só) perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço nu e cheio.
Eu queria ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal.

Ana Cristina César

quinta-feira, junho 05, 2008

Foolish IV

Farei um poema louco e breve,
Como tua boca pede.
Farei um poema como queres,
Novo e leve.
Ai, quem dera ser tão doce
Como seus versos descrevem.
Alcançaria a Lua,
Linda e nua.
Ela, metade minha.
Eu, metade sua.













poesia: Carolina de Carvalho (2007) - foto: roubei da Cléo...

domingo, maio 18, 2008

Lua...Lua...Lua...Lua...

Déjame sueltas las manos y el corazón, déjame libre!
Deja que mis dedos corran por los caminos de tu cuerpo.
La pasión —sangre, fuego, besos—me incendia a llamaradas trémulas.
Ay, tú no sabes lo que es esto!
Es la tempestad de mis sentidos doblegando la selva sensible de mis nervios.
Es la carne que grita con sus ardientes lenguas!
Es el incendio!
(...)
Déjame libre las manos y el corazón, déjame libre!
Yo sólo te deseo, yo sólo te deseo!
No es amor, es deseo que se agosta y se extingue,
es precipitación de furias, acercamiento de lo imposible,
pero estás tú, estás para dármelo todo,
y a darme lo que tienes a la tierra viniste—
como yo para contenerte, y desearte, y recibirte!

(Pablo Neruda)

quarta-feira, maio 14, 2008

Portifólio III - A Megera Domada




Foram 8 anúncios diferentes para a imprensa, 2 para o metrô, flyer, cartaz, convite, camiseta, banner e um programa com 50 páginas... ufa! que correria...eu que fiz!
Vai lá: Teatro Sérgio Cardoso - Estréia 31/05

sexta-feira, maio 09, 2008

Para alegrar o dia....

Something ...



Composição: George Harrison / Paul McCartney & Eric Clapton in the Concert for George...

sexta-feira, maio 02, 2008

Colombina...

Já quis ser muito na vida,
bailarina, trapezista,
rainha e anarquista.

Certa feita descobri,
Nasci mesmo pra ser flor.
Coisa de quem arrisca,
Nasce e morre pro amor.

foto e poesia: Carolina de Carvalho; "Borboletário" em Belém do Pará - 2008

sábado, março 15, 2008

Portifólio II - O dadaísmo de Majeca

Com paixão e inteligência Angélica Angelucci criou "Walkiriana", um espetáculo que traz repercussões dadaístas, tanto na forma quanto no desencanto com a realidade do mundo contemporâneo.Ela nasceu há cinco mil anos e, antes de se tornar mensageira de Odin, viveu o esplendor do Egito na corte do Faraó, seu pai. Honra Odin assegurando odiar brigas, mas amar a guerra; também o honra ao cultuar a sabedoria no século das luzes. Iluminista iluminada, acredita-se. Íntima de Voltaire, próxima de Robespierre. Andou pela Bastilha, quando a guilhotina fazia chover cabeças em Paris. Talvez tenha sido nessa época que se tornou maestra. Isto porque, na sua voracidade de saber e de viver, descobriu que a música compartilha no cérebro humano o mesmo mocó da sexualidade. E nesses tempos de revoluções e melodramas, nasceu o romantismo, no qual o amor fatalmente tem final infeliz, não dá certo, mas dá sempre uma ópera!
Em performance apaixonada Angélica Angelucci cria um espetáculo inteligente e amargamente divertido.
Esse enredo, configurado no limite da alta filosofia, com o dadaísmo e o escracho é que Angélica Angelucci, a Majeca, desenvolveu em "Walkiriana", uma tragicomédia em quatro regências. Não é obra merecedora de aplausos irrestritos, é verdade. Mas está longe de ser a bobagem que algum desavisado possa ver a custa de seu olhar desatento.

A trajetória dessa fantástica mulher milenar (que em longevidade supera a Orlando da Virginia Wolf) pode – creio mesmo que deve – ser entendido como uma visão dadá do mundo contemporâneo. Seu relato de vida é recorrente, tanto geográfica quanto histórica e musicalmente. Como a criança que não separa a fantasia da realidade e as opera com a imaginação, Majeca conduz sua Walkiriana por terras e mares. Não se peja em misturar Wagner, Mozart e Villa-Lobos a sambistas e forrozeiros. Nem Nietzsche (que andou lhe confidenciando coisas em certo período) a Paulo Coelho. Nós, pobres (ou privilegiados?) habitantes do terceiro milênio, somos a soma de tudo o que foi, de tudo o que aconteceu e formatou nossa humanidade.

Como uma walkiria, recolhendo nos campos de batalha os heróis tombados, ela sofre também o impacto da tragédia – e nisso está a sátira ou a carnavalização realizada por Majeca – perdendo primeiro o braço esquerdo, numa das guerras do século 19, e depois o direito, já na 2ª Guerra Mundial. Cotó de um ou dos dois braços, não importa, a maestra continua a reger seu concerto metafísico pelo tempo afora. Um retrato grotesco da cultura ocidental que hoje, absolutamente aviltada pelas pulsões e compulsões consumistas, perdeu o senso de valor espiritual. Mas não manifesta a crítica com o dedo em riste (até porque com a perda dos braços, faltam-lhe as mãos e, conseqüentemente, os dedos), mas com o próprio corpo colocado em sacrifício.

A idéia da obra é da própria Angélica Angelucci, que teve a colaboração de Pepê Mata Machado para a finalização do texto, de Lulu Pavarin, na direção cênica e de Wilson Surkorski na criação de música original. E na realidade todos esses artistas estão com ela em cena, apoiando-a em sua evolução milimetricamente destrambelhada. Será difícil definir por escolas estéticas ou pelas vertentes em moda nos nossos palcos essa manifestação dadaísta de Majeca, mas é empolgante vê-la evoluindo em cena com toda paixão, com uma divina vontade de dizer algo sobre ela mesma, sobre nosso tempo...

Sebastião Milaré - www.antaprofana.com.br

Walkiriana nem sempre foi maestrina. Uma antiqüíssima mulher vivendo inúmeras venturas, peripécias e tragédias, sem se abalar, percorrendo diferentes momentos históricos e linguagens estéticas; afirma ser uma iluminada iluminista.

Walkiriana - uma tragicomédia em 4 regências;
texto: Angélica Angelucci, Pepê Mata Machado; direção: Lulu Pavarim;
foto: Flambart; design gráfico: Carolina de Carvalho
Temporada Centro Cultural São Paulo - 28/03 a 27/04

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Sol...

Há num joelho ferido.
Aventura de menino,
Jogando futebol.
Travessura de menina,
Invadida pelo Sol.



poesia:Carolina de Carvalho - 2005; foto:1979

terça-feira, fevereiro 12, 2008

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Bienvenue dans l'univers d'Amélie Poulain

Monsieur, quand le doigt montre le ciel, l'imbecile regarde le doigt...

tradução : Senhor, quando o dedo mostra o céu, o imbecil olha o dedo...

terça-feira, janeiro 29, 2008

Ficção

O homem parado na minha frente havia tirado de dentro de uma bolsinha de couro, já envelhecida pelo tempo, uma pinça metálica. Pequena e de pontas semi-afiadas. Delicadamente levantou minha blusa e beliscou, com a ponta da pinça, uma pinta de nascença do lado direito do meu ventre. Foi no mesmo instante em que senti um cheiro de flores invadindo o ambiente, um cheiro doce e forte.
O homem, que tinha a barba cerrada e amarelada, tirava de dentro mim um botão de flor,incandescente. Suas pétalas tinham na base um colorido lilás e azulado fosforescentes. O centro do botão era transparente e a medida em que olhava para o vértice, o amarelo alaranjado crescia, faiscando raios finos e infinitos que iluminavam todo o ambiente. Era um botão de flor e de fogo.
Ouvi passos apressados subindo as escadarias do lado de fora do quarto onde estávamos. Um quarto escuro, pequeno e úmido. As tábuas do teto quase despencando, indicavam que o local estava abandonado há algum tempo. O som dos passos era pesado, seco. Logo imaginei homens escondendo seus rostos em capacetes negros e em fardas, também negras, cheias de apetrechos de guerra e armas com lanternas nas pontas que iluminavam os corredores, em frenesi, e vinham em nossa direção.
A voz estrondosa do homem de barba amarela penetrou em meus poros: “Você está a salvo, fuja pela escotilha, eles virão atrás da flor.”
Pressionei meus lábios aos dele, com a força de quem não iria encontrá-lo tão cedo. Ele sorriu, nos abraçamos e fugi, em tempo de ouvir. “ Você é meu anjo….”.
Tentei guardar na memória o sorriso protetor daquele homem misterioso, aquela sensação de segurança. Subi por uma pequena escotilha incrustada no teto imaginando o que aconteceria com meu protetor e o quê, na realidade, seria aquela flor incandescente.
O barulho que se seguiu foi tão forte que não tive tempo de perceber se era do teto que havia desabado, ou se eram as armas dos homens de capacete. Pensei se estaria mesmo em segurança e no que poderia acontecer `aquele homem…

Acordei com o suor atrás do pescoço, escorrendo lentamente. A cama tremia numa intensidade tal, que demorei um tempo para entender que tudo não passara de um sonho. Cerrei os olhos, esfregando o dorso da mão, num gesto infantil.
Flashes de luzes brancas, pequeninas e brilhantes se formaram na pupila, turvando a visão que demorou a voltar e definir o desenho do quarto onde estava. Apoiei a cabeça na parede fria atrás da cama, o suor continuou a escorrer, agora pela coluna toda, arrepiando o corpo.
O aroma de flores invadiu o apartamento, uma mistura de jasmim e rosas, o mesmo aroma doce e forte do sonho. Levantei de sopetão e fui em direção `a cozinha. A chaleira em cima do fogão apitava, o vapor quente saia de dentro dela, olhei para meu ventre e a pinta de nascença continuava lá, intacta.
Ouvi alguém atrás de mim : “ Você é meu anjo.”
Ao virar, vi aquele mesmo homem de barba, o mesmo sorriso terno. Só que desta vez, ele trazia um pequeno papel em suas mãos. Estava escrito: “Positivo”


Chá de Rosas: 4 xícaras (chá) de água; pétalas de 6 rosas; 1 colher (café) de água de rosas;
Coloque a água numa chaleira e leve ao fogo alto. Quando ferver, coloque as pétalas e deixe por 5 minutos. Retire e junte a água de rosas. Adoce à gosto e sirva imediatamente.


terça-feira, janeiro 15, 2008

Lua de São Jorge...

Ó São Jorge, meu santo guerreiro, invencível na fé em Deus que trazeis em vosso rosto a esperança e confiança, abrí meus caminhos.
Eu andarei vestida e armada com vossas armas para que meus inimigos, tendo olhos não me vejam, tendo pés, não me alcancem, tendo mãos, não me peguem e nem mesmo pensamentos possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo, o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar.
Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estendei vosso escudo e vossas poderosas armas protegendo-me com vossa força e grandeza.
Ajudai-me a superar todo desânimo e a alcançar a graça que vos peço.
Dai-me coragem e esperança, fortalecei a minha fé e auxiliai-me nessa necessidade.

foto: Carolina de Carvalho - Castelo de São Jorge - Lisboa - 2007

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Mamma Mia

Maria Neta de Victória
Santa Aurora Virtuosa
Maria Filha de Ana
Santa Forte Bondosa
Maria Mãe de Carolina
Santa Luz Ilumina























foto: arquivo pessoal - família amada - 1980

segunda-feira, janeiro 07, 2008

From Neederland...

Comecei o ano conhecendo o Leo, um holandês de 1,80m, loiro de olhos azuis que me interpelou na rua. Felicíssimo por encontrar uma boa alma que falasse o mínimo de inglês, o Leo e sua simpatia, estavam perdidos e haviam sido assaltados. Entre a ida ao consulado e a chegada de seu seguro viagem, ele precisava pagar um hotel xexelento na av. Brig. Luiz Antônio que custava 25 contos.
Ficamos conversando mais uns minutos até que resolvi dispor da grana, ainda que fosse um golpe…
Só que o cara era holandês! - Eu tive a certeza de que era mesmo holandês, quando me falou o nome da cidade onde nasceu, um nome pra lá de esquisito e que ele teve de repetir 3 vezes para que eu entendesse, não entendi. - E os holandeses não têm esse histórico de golpes, então, resolvi fazer minha primeira boa ação de ano novo.
O Leo foi embora a pé, com a certeza de que as pernas aguentariam sem problemas caminhar quilômetros até a Brigadeiro. Agradecidíssimo, levou também meus 25 contos.
Ao ir embora, gentilmente beijou-me as mãos, num gesto de cavalheirismo `a moda antiga. E num piscar de olhos, sumiu.
Ou essa foi a cantada mais cara que já levei, ou foi uma boa maneira de começar o ano. Fazendo uma boa ação para um desconhecido. De qualquer forma, foi um empurrãozinho para voltar a escrever, e assim, desejar `a todos, um ótimo ano novo.


sábado, dezembro 08, 2007

Lembranças de Ilha Bela...

Piscina ao luar...
Rede olhando o mar...
E amar... E amar... E amar...

Ilustração: Angeli

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Carta Anônima - Caio Fernando Abreu

"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.
Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.
Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.
Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo."


...enquanto isso, na janela da cozinha...

segunda-feira, novembro 19, 2007

Senta que lá vem história....

2005 - Houve um concurso nacional de arquitetura para a realização de um museu em memória dos negros que lutaram na Guerra dos Farrapos (1835-1845). Conhecidos como Lanceiros Negros, eram a linha de fronte das tropas, com a promessa de liberdade no final da guerra, os lanceiros transformaram-se na vanguarda das tropas farroupilhas. Eram usados em missões arriscadas, pois tinham grande mobilidade. Lutavam a pé e a cavalo, portando lanças de três metros de comprimento. Quando havia munição, usavam armas de fogo. Atacavam gritando para intimidar o inimigo. Não usavam escudos. Para se proteger dos sabres e das lanças do adversário, enrolavam o poncho no braço livre. À medida que a guerra se aproximava do fim, eles se tornaram mais numerosos, tanto que no final havia dois corpos de lanceiros, totalizando mais de mil soldados. Esses bravos heróis foram dizimados numa emboscada próxima ao sítio de Porongos, no Rio Grande do Sul. Trata -se de um mitológico massacre ocorrido durante a Revolução Farroupilha (1835-1845) e bem escamoteado durante os anos.
Nós (Euclides Oliveira, Sidney Linhares, Dante Furlan e eu ) ganhamos o concurso.
2006 - Na cerimônia de premiação, lá no Rio Grande, depois dos hinos, brasileiro e gaúcho entoados com força, ouvimos emocionados e orgulhosos, que nossos nomes estavam cravados na história do país e do movimento negro.
2007 – Entre outras coisas, houve uma crise entre a secretaria dos direitos humanos - que é a responsável junto com a fundação Palmares nas negociações com governo federal e estadual para a realização do projeto - e o município. Parece que uma índia mordeu o nariz do secretário, ou prefeito, ou algum burocrata do gênero, lá em Porongos e por conta disso, os laços entre tais instituições ficaram abalados.
Ainda estamos esperando e torcendo para que a burocracia não empate o que seria o primeiro museu deste porte e importância, num local tombado e em processo de se tornar patrimônio histórico da humanidade....

As últimas notícias: Brasília, 12/6/07
- Em visita a sede da Fundação Cultural Palmares/MinC nesta segunda-feira (11), uma comissão de parlamentares, acompanhados pelo secretário Municipal da Educação, Cultura e Desporto de Pinheiro Machado (RS), veio formalizar junto ao presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo, pedido de inclusão de emenda para garantir a construção do Parque Memorial Lanceiros Negros, no Cerro dos Porongos, no interior do município. A Fundação Cultural Palmares/MinC, em conjunto com o governo gaúcho, prefeitura de Pinheiro Machado e Instituto dos Arquitetos do Brasil realizou concurso nacional para escolher o projeto arquitetônico do Parque Memorial.
O presidente da FCP/MinC, Zulu Araújo, se declarou muito satisfeito com a visita e assegurou a delegação gaúcha que está entre as prioridades de sua gestão entregar o Parque Memorial Lanceiros Negros para a comunidade gaúcha e brasileira. O empreendimento, disse Zulu Araújo, é de vital importância para a história negra brasileira (...)


Pranchas do projeto vencedor do concurso para o Memorial Lanceiros Negros; infelizmente em baixa resolução.


quinta-feira, novembro 15, 2007

Girassóis

A menina deixa
O vestido no varal.
Esquece a rima,
Solta o perfume,
Vai embora.
Sem nome.

A menina deixa
O vestido no varal.
Amarelo, florido,
Na madrugada.
Girassol.

A menina deixa
O vestido no varal.
Quebra a calha,
Espalha o mel.

A menina que deixa
O vestido no varal.
É muito mais
Do que um vestido
No varal.

homenagem singela aos 13 amados girassóis...vai lá: www2.uol.com.br/angeli

quinta-feira, novembro 01, 2007

Eu não falo japonês!

Agulha em barba de bode,
Miolo em pelo de gato.
Só quem sabe a Ode,
Comigo pode de fato!


A tradução do Haiku (Haikai em japonês) deve ser algo bem próximo disso, mas se desconfiar, vai lá, tem arte japonesa, feita por alguém que chama Maria Manuela (???!!!): http://www.mariamanuela.com/hem.htm

sábado, outubro 27, 2007

Foolish III

A cidade dorme
Pingos de luz
Me consomem

quinta-feira, outubro 25, 2007

Tic Tac ...

Tic Tac Tic Tac,
Esse barulho não para.
Setembro, Outubro,
Daqui a pouco verão.
Tic Tac Tic Tac,
Já é madrugada,
O ano acabou,
Tic Tac Tic Tac,
Que inferno!
Esse barulho não para...

quinta-feira, outubro 18, 2007

In memoriam

Foi em um belo domingo de sol, num desses muitos finais de semana gostosos que passei junto com minha mãe e que estão guardados na memória, um dos muitos felizes domingos no clube tão ternos e livres, que ganhei um beijo simplesmente inesquecível.
O tempo aos domingos era só meu e de minha mãe. Ela sempre de bom humor, me acordava cedinho com as maletinhas prontas para irmos ao clube. Tudo organizadíssimo, roupão, biquini, protetor solar super cheiroso, sandalinha e roupinha frugal para aproveitar um belo dia de sol. E naquele domingo específico, ela deixou eu convidar uma amiguinha. O paraíso! Garantia de um dia divertido.
No meio da tarde, tinha a hora da mistura coca-cola e cheetos, huuummmm…nada melhor do que aquela horinha em que os saquinhos de cheetos eram misturados com a coca cola e o sabor de cloro da piscina que ainda estava impregnado nos dedos. Era de lamber os beiços!
Quando anoitecia íamos sempre a um restaurante pequenino na vila madalena, próximo de onde morávamos para comer um dos meus pratos prediletos, gnocchi al sugo.
As recordações desses dias, os domingos no clube, são de dias perfeitos para mim, e vêm acompanhadas de um sabor de alegria. Piscina, amigos, lanche junk, mamãe por perto e um jantar dos deuses no final de tudo.
E foi num domingo como esse que, ao sairmos da cantina, encontramos com ele. Eu, então com 6 anos, encarei o que talvez tenha sido a primeira situação de enfrentamento entre minha timidez e minha admiração.
Tive um instante para decidir, será que valeria a pena ir até lá e me declarar ou deveria ser discreta e ir embora? Lembro de puxar minha mãe meio de canto e perguntar a ela o quê fazer. E ela, com um sorriso no rosto, decerto achando graça na filha pequenina, me encorajou a deixar a timidez de lado e confrontar o desafio que aquele instante apresentava.
Respirei fundo, atravessei o restaurante e decidida pedi licença `aquele senhor, que interrompeu sua conversa com um leve sorriso e ouviu o que deveria ser o milhonésimo quarto pedido de autógrafo. Para mim, o primeiro e penúltimo que pediria na vida.
Ele, muito gentil, respondeu perguntando se eu não preferia ganhar um beijo. Eu disse que sim, mas meio desconfiada quis saber o porquê, e ele prontamente explicou que um beijo seria muito melhor porque o papel eu certamente perderia, e o beijo eu poderia guardar para sempre. Aceitei a oferta, mas não contente quis também dar um beijo meu, em retribuição. Ele aceitou, soltou uma gostosa risada e aí sim, fui embora, feliz.
É claro que não entendia ainda a dimensão exata de quem era aquele senhor, e até duvidei um pouco daquela troca, afinal para uma criança, chegar na escola no dia seguinte com um papelzinho assinado pelo ator principal da novela, teria sido bem melhor. Mas, ele estava coberto de razão, e eu invariavelmente recordo daquele dia quando penso nos meus felizes domingos ensolarados.
Hoje lembrei de novo do beijo que me destes, e te ofereço aqui, um beijo meu em retribuição.

In memoriam, ao inesquecível Paulo Autran.

foto: “Um Deus Dormiu Lá em Casa” - 1949

quarta-feira, outubro 10, 2007

Saci Perereca

Sou mesmo endiabrada,
Desta vida quero tudo.
Tenho pressa!
Contudo,
Por vez acalmo.
Respiro fundo,
Contorno o mundo,
E de novo quero.























Ilustração: Angeli , para Sociedade dos Observadores de Saci.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Elipse paraláctica.

Fino traço limite
Entre tudo que quero
E tudo que alcanço
Linha firme limítrofe
Livre no sonho
Arrebatada na Terra


poema: Carolina de Carvalho (2007); tatoo (para sempre...)

terça-feira, outubro 02, 2007

Reflexão Sobre a Reflexão

Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.


texto: Millor Fernandes; foto : arquivo pessoal

quinta-feira, setembro 27, 2007

Portifólio

Em breve, num cinema perto de você.
Curta metragem, baseado em texto original de Angeli.

design do cartaz : Carolina de Carvalho - 2007

terça-feira, setembro 25, 2007

Foolish II

- Abram as janelas, desabotoem minha blusa, quero respirar.


texto: Patrícia Galvão; desenho: Carolina de Carvalho

sábado, setembro 22, 2007

Preciosa...

Preciosa Primavera!
Traz-me flores coloridas.
Brisas perfumadas.
Borboletas encantadas.

Preciosa Primavera!
De toque tão suave…
Feche os olhos,
Voe alto!
Não tarde a chegar,
Nem ouse passar.

Preciosa Primavera!
Mostre que as delícias
De um desassossego,
São mesmo saborosas.
E que és realmente,
Primavera Preciosa!

Foto: Fabricio Colvero; a Lua vermelha é um efeito causado por refração atmosférica; a noite de quase primavera a trouxe para a minha janela. poesia: Carolina de Carvalho - 2005

quinta-feira, setembro 20, 2007

Não escondo!

Não há essa destreza,
Na minha natureza.
Há sedução,
Ternura, beleza,
Imaginação, erotismo,
Sutileza.
Pra quem souber entrever...
Para quem não,
Ilusão.

terça-feira, setembro 18, 2007

Mais um

Hoje tem lançamento do livro Laertevisão, na Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho 915, a partir das 19h. Estão todos convidados. Beijo

segunda-feira, setembro 17, 2007

Descrição de um Objeto Inanimado

Teve um dia que ganhei uma estrela. Era de papelão a estrela que eu ganhei. Recortada `as pressas. Era uma estrela, de papelão amarelo. A minha estrela… Teve um dia que ganhei uma estrela de 5 pontas. De papelão e de cinco pontas, amarelada e brilhante. A minha estrela recortada `as pressas num papelão tinha 5 pontas. A estrela que um dia eu ganhei era pequena e cabia na palma da mão. Brilhava o brilho do papelão e brilhava também o brilho do sorriso que ganhei junto com a minha estrela. O sorriso da estrela veio amarelado porque estava sem graça de ter recortado uma estrela tão pequenina num papelão tão `as pressas. Mas eu guardo com carinho esse sorriso da pequena estrela de cinco pontas recortada no papelão amarelado e brilhante. O sorriso lindo e amarelado de vergonha que acompanhava a estrela, eu guardo também na palma da mão. Porque o sorriso e a estrela não se separam, cabem os dois na palma da mão. E toda vez que penso na minha pequena estrela lembro do dia em que ganhei aquela estrela brilhante e sorrio um sorriso brilhante de papelão.


Foto: Vick B. Spencer, Ilha de Boipeba; texto: Escrevi para uma aula de produção textual. Minha professora e amiga disse que eu cometo um milhão trezentos e cinquenta e nove erros de pontuação por linha de texto escrito. Ela tem toda razão, e é por isso que e vai dar risada quando ler isto aqui.

terça-feira, setembro 11, 2007

Ícaro

Sem fala,
Sem calma,
Sou Ícaro.
Tenho asas, vôo ao Sol.
Para que as nuvens me devorem.
Com brinde e briho nos olhos,
E não me façam sangrar.

Há dois anos numa época primaveril, escrevi esta poesia...a primeira. Depois, fiz um primeiro livreto (que ainda não foi publicado ) impresso em papel jornal refilado manualmente e entregue a pouquíssimos amigos.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Uma planta de água, que gosta de lugares calmos

Estudando um pouco sobre flores descobri que a flor-de-lis, tem origem controversa e significados diversos. Já foi símbolo de realeza, de poder e soberania, de pureza do corpo e da alma.
Alguns historiadores defendem que a flor-de-lis era usada em mapas para indicar o norte, Em 1302, o navegador italiano Flávio Gioja inventou a bússola como instrumento de navegação, adoptando a flor-de-lis (ou ponta de seta) para indicar o norte, em honra do rei de Nápoles Tradicionalmente, foi usada para representar a realeza Francesa, e seu sentido é de perfeição, luz e vida. A lenda diz que um anjo presenteou a Clóvis, o rei Merovingio dos Francos, com um lírio de ouro como símbolo de sua purificação por sua conversão ao Cristianismo. Outros dizem que Clóvis adotou o símbolo quando os lírios de água lhe mostraram o caminho para cruzar em segurança um rio e ganhar uma batalha..
Na Índia antiga, simbolizava a vida e a ressurreição. No Egito era um atributo do deus Horus, cerca de 2000 anos antes de Cristo.
Foi na década de 1890, que Baden-Powell adoptou a flor-de-lis usada nos mapas como insígnia (metálica) para certificar os militares (escoteiros) que completassem com sucesso um curso de exploradores que ele próprio criou.
Em espanhol flor-de-lis as vezes é escrita como "fleur-de-lys" ou "flor del lirio", Representando a flor de lírio, ou lótus, que fora imortalizado por Monet em sua série de pinturas “Nenúfar” .
O nenúfar também é chamado de lótus azul, nymphea, flor-de-lis sagrada das águas. Este nome teve origem na deusa das fontes, Nymphe. As ninfas costumavam brincar no meio dos nenúfares. Na mitologia grega, o nenúfar está ligado às virgens. Para os egípcios, o nenúfar fazia parte do nascimento do mundo, juntamente com o deus sol e o deus Osiris. No budismo, diz a lenda que Brahma nasceu de uma flor de lótus que teria crescido no umbigo de Vishnou.
Descobri, contudo que a verdadeira flor-de-lis: trata-se da Sprekelia formosíssima, uma representante da família das Amarilidáceas, originária do México e da Guatemala. Conhecida em outros idiomas como lírio-asteca, lírio-de-Saint-James (St. James lily), lírio-de-saint-Jacques (Lis de Saint-Jacques) a Sprekelia formosíssima é a única espécie do gênero.
Por que estou escrevendo isso? Sei lá... Acho que lembrei de Clarice...
"É um nome latino, né, eu perguntei para o meu pai. Desde quando havia Lispector na Ucrânia? Ele disse que há gerações e gerações anteriores. Eu suponho que o nome foi rolando, rolando, perdendo algumas sílabas e se transformando nessa coisa que parece 'LIS NO PEITO', em latim: flor de lis"