terça-feira, janeiro 06, 2009

Sobre Café e Cigarros...

Lembrou da última frase que havia dito. Alguém vendendo um daqueles bilhetes de loteria chamou sua atenção, quebrando a linearidade de seus pensamentos. Não conseguia precisar quantos dias passaram desde o telefonema em que ela fez o convite para que se encontrassem na véspera de ano novo. A memória inexistente de um vestido, leve e transparente, inegavelmente trazia certa angústia em sua expectativa. Há muito desejava encontrá-la. Parado na porta de seu edifício, exitou. Precisava comprar cigarros. E foi.
A chuva caia torrencialmente . Os termômetros marcavam 29 graus. Os carros avançavam lentamente contrastando com os minutos, que passavam avassaladores. O trânsito paulistano, mesmo na madrugada, era insuportável por causa das comemorações de final de ano. No celular palavras quase indecifráveis. A voz um pouco alterada disfarçava o nervosismo. Estava atrasado e suas mãos tremiam. Suava, não tanto pelo calor.
Ao abrir a porta, os olhos que por muito tempo foram absortos, carregavam agora uma expressão tenra. Ela também tinha medo. Abriu a janela na tentativa de que o vento abrandasse qualquer alteração em suas respirações. Abraçou-a por trás, e ficaram assim, alguns minutos, envolvidos pelo silêncio. A chuva cortando a face, os olhos, os lábios, os líquidos todos, escorriam. Escorreram. Ela precisava comprar cigarros.

foto: Henri Cartier Bresson; texto: Carolina de Carvalho - 2006

2 comentários:

Cléo disse...

amei esse texto, Carol! beijo

carol disse...

Que delícia saber disso!
beijos e mais beijos...